
A The New Yorker dessa semana traz uma extensa reportagem sobre Hugo Chavez, “o herdeiro de Fidel”, assinada pelo jornalista Jon Lee Anderson. Um trabalho de ourives: em entrevista concedida à revista colombiana Cambio em janeiro desse ano, Anderson estava escrevendo a reportagem que só chegou aos leitores agora, em meados de junho.
Anderson é um dos principais colaboradores da revista, em que escreve sobre política e conflitos internacionais. Além disso, é o autor de “Che Guevara: uma vida em vermelho”, biografia do líder revolucionário editada no Brasil pela Companhia das Letras.
É a primeira reportagem sobre a América Latina escrita por Anderson desde a troca de acusações entre ele e Diogo Schelp, editor de internacional da revista Veja, iniciada após a semanal brasileira estampar na capa a matéria “Che – A farsa do herói”.

A revista Veja com Che na capa apareceu nas bancas em 29 de setembro de 2007. No dia 23 de outubro, Jon Lee Anderson enviou um e-mail à redação de Veja e a outros jornalistas brasileiros, entre eles Pedro Dória, de O Estado de S. Paulo, que tornou a carta pública em seu blog:
Caro Diogo,
Fiquei intrigado quando você não me procurou após eu responder seu email. Aí me passaram sua reportagem em Veja, que foi a mais parcial análise de uma figura política contemporânea que li em muito tempo. Foi justamente este tipo de reportagem hiper editorializada, ou uma hagiografia ou – como é o seu caso – uma demonização, que me fizeram escrever a biografia de Che. Tentei pôr pele e osso na figura super-mitificada de Che para compreender que tipo de pessoa ele foi. O que você escreveu foi um texto opinativo camuflado de jornalismo imparcial, coisa que evidentemente não é. Jornalismo honesto, pelos meus critérios, envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade. O que você fez com Che é o equivalente a escrever sobre George W. Bush utilizando apenas o que lhe disseram Hugo Chávez e Mahmoud Ahmadinejad para sustentar seu ponto de vista. No fim das contas, estou feliz que você não tenha me entrevistado. Eu teria falado em boa fé imaginando, equivocadamente, que você se tratava de um jornalista sério, um companheiro de profissão honesto. Ao presumir isto, eu estaria errado. Esteja à vontade para publicar esta carta em Veja, se for seu desejo.
Cordialmente, Jon Lee Anderson.
A resposta de Diogo Schelp também não se restringiu à caixa de e-mails dos dois jornalistas, sendo publicada no blog do Reinaldo Azevedo, articulista de Veja, no dia 14 de novembro:
Caro Anderson,
Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um e-mail pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua “carta” – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um e-mail circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.
Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.
Sem mais, Diogo Schelp
A tréplica de Jon Lee Anderson:
Caro Diogo Schelp,
Obrigado por sua “gentil” resposta (Aprendi que você que é de fato uma pessoa bem “gentil”, como apontou não uma, mas duas vezes). E vejo agora que o desentendimento que nos envolve está ligado inteiramente ao meu caráter profundamente falho. Eu nunca deveria ter presumido, claro, que você tenha recebido minha resposta inicial, e depois meu e-mail após o seu texto – e simplesmente decidiu ignorá-los. Obviamente você tem um vigoroso bloqueador de spam. Um conselho técnico: talvez você deva selecionar seu sistema para “moderado” em vez de “extremo”. Foi o que fiz, e como resultado recebi seus e-mails sem problemas. Lembre-se, Diogo – moderado, e não extremo. Esta é a chave.
Você me acusa de ser antiético, e um “mau jornalista”. Você até questiona se eu sou mesmo um jornalista. Nossa, você ficou IRRITADO, heim? Entre as minhas gargalhadas, digo que isto, vindo de você, soa como o roto falando do rasgado. Vamos recapitular por um momento a metodologia usada para ludibriar os leitores de Veja:
Você publicou uma capa ilustrada com fotos de Che, usando a popularidade comercial da imagem de Guevara para vender mais cópias da revista. Para preencher o texto, pegou algumas referências já escritas, incluindo a minha, para sustentar sua tese particular de que o heroísmo de Che nada mais é do que uma construção marxista – como evidencia o título: “Che, a Farsa do Herói”.
Para chegar a sua conclusão arrasa-quarteirão, você entrevistou, nas minhas contas, sete pessoas: um velho oponente boliviano de Che e cubanos exilados anti-Castro, alguns deles ex-prisioneiros e veteranos de várias campanhas paramilitares para derrubar Castro (aliás, um deles, o acadêmico Jaime Suchlicki, você não mencionou, é pago pelo governo dos Estados Unidos como líder do intitulado Projeto de Transição Cubano). Também percebi que você deu especial atenção ao testemunho de Felix Rodriguez, o ex-agente da CIA que liderou a execução de Che. Você o destaca porque o considera sua testemunha mais contundente? Ou porque foi a única fonte com quem você esteve pessoalmente? Todos os outros parecem ter sido contatados por Veja pelo telefone. Evidentemente, você tem rigorosos critérios de reportagem.
Como disse em minha “carta aberta” a você, escrever uma reportagem com o tipo de fontes é como escrever um perfil de George W. Bush pautado por Mahmoud Ahmadinejad e Hugo Chávez. Em outras palavras, não é algo que possa nem deva ser levado a sério. É um exercício novelesco, algo para se divertir, mas NÃO é jornalismo. Afirmar aos seus leitores, como você disse no texto de abertura, que “Veja conversou com historiadores, biógrafos, antigos camaradas de Che e do governo cubano” dá a impressão errônea que você realmente fez o dever de casa, que está oferecendo aos leitores jornalismo bem fundamentado, que estava apresentando a eles algo novo. Infelizmente, a maior parte do que você escreveu é mera propaganda, mero requentado de coisas que foram afirmadas e reafirmadas, sem muita base, em Miami nos últimos 40 anos.
Não se trata de política. Eu escrevi um livro que, na sua definição, é “a mais completa biografia” escrita sobre Che. Há material que pode ser usado para criticar Che, mas também há aspectos de sua vida e personalidade que as pessoas consideram admiráveis. Em outras palavras, é um retrato completo. E como eu sempre disse, escrevi minha biografia como um antídoto aos inúmeros exercícios de propaganda que têm soterrado o verdadeiro Che, como hagiografias ou demonizações – como o seu texto.
Por favor, não cometa o erro de me acusar de defender Che devido a minha postura crítica com você. Vamos ser claros: a questão aqui não é Che, é a qualidade do seu jornalismo. Seu texto é, simplesmente, bem ruim, e causa estranheza vê-lo em uma respeitável revista como Veja. Seus leitores merecem mais, e aparecer ou não em suas páginas enquanto você estiver no comando não me preocupa. O que é preocupante é que, com tantos jornalistas brilhantes no Brasil, Veja tenha escolhido você como “editor internacional”.
Cordialmente, Jon Lee Anderson.
Logo depois da troca de acusações entre os jornalistas, Veja alfinetou Jon Lee Anderson sem deixar claro o porquê do ataque. Em tom de piada interna, a revista publicou a seguinte tira na seção Radar, na edição de 28 de novembro, dois meses após a capa com Che:
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Luiz! Sensacionaaaal a tréplica! Mandou muito de ter publicado! Me deu até vontade de ler a biografia!
Beijo
Realmente, a verdade não pode ser apagada com mentiras. Grande personalidade esse jornalista, salvo engano americano, jon lee anderson. A Historia é nossa e esta ao lado do povo, como perpertuou Salvador Allende (antes de ser bombardeado por aviões americanos no palácio presidencial do chile.