
A prisão do sargento Laci de Araújo, quatro dias após estampar a capa da Época dessa semana admitindo a homossexualidade, torna obrigatória a leitura de alguns trechos da reportagem da revista. É preciso tratar o assunto com a mesma cautela dos repórteres: afirmar que Laci foi preso como retaliação por manchar a imagem do Exército é, assim como desprezar essa hipótese, algo simplista demais.
O sargento [Fernando], freqüentador de academias de ginástica, cabelo sempre aprumado à base de gel, diz que descobriu ser homossexual durante o curso de formação, em Minas Gerais. Apaixonou-se por um colega de turma. “Foi um amor platônico… Ele passou a ser um grande amigo. Na formatura, quando decidi contar, ele respondeu que eu estava confundindo as coisas”, afirma. Fernando diz ser homossexual. Laci, por sua vez, se diz bissexual. “Eu tenho certeza de que a pessoa não vira gay, ela já nasce gay. Mesmo gostando também de homens, até certa idade eu só tive namoradas. Depois é que eu resolvi me relacionar com pessoas do mesmo sexo”, afirma. O sargento, dedos cheios de anéis (“São mantras, para me proteger e para proteger as pessoas que vivem à minha volta”), faz sobrancelha, usa cremes anti-envelhecimento e tira a barba com cera. Ele diz não ter dúvidas de que o Exército, pelas peculiaridades da vida no quartel, se torna atraente para os homossexuais. “Existe coisa melhor para um homossexual do que tomar banho com um monte de homem pelado e sarado? Para um gay, as Forças Armadas são um paraíso”, afirma. “Há muito mais homossexual no Exército do que se imagina. O problema é que muitos são enrustidos. Eu mesmo já fui cantado e assediado várias vezes, até por um general”, diz Fernando, ou sargento Alcântara. Os dois mesmos, até dias atrás, não assumiam publicamente. Eles dizem que nem suas famílias sabiam. “Vão saber agora, com esta entrevista”, afirma Fernando. Ambos são de famílias conservadoras. Fernando diz que sua mãe é católica fervorosa. Laci tem um irmão padre.
Nas Forças Armadas, recorrer à Justiça comum tem sido uma prerrogativa de militares que reclamam do tratamento recebido por seus superiores. No caso de Laci e Fernando, a batalha que a dupla vem travando com o Exército começou por causa da “dupla jornada” de Laci como sargento e cover de Cássia Eller. A história é controversa. Em 2007, Laci passou seis meses fora do trabalho. Alegou problemas de saúde. “Já diagnosticaram várias coisas, como lesão medular, esclerose múltipla, disfunção labiríntica, depressão… Mas até hoje não sei ao certo o que é”, diz ele. O sargento mostra caixas de remédios de tarja preta e atestados médicos como evidência do problema.
Os superiores de Laci dizem que ele se recusou a receber os médicos enviados para fazer uma perícia. Decidiu-se transferi-lo do Hospital Geral de Brasília, onde estava formalmente lotado, para o 4º Batalhão de Infantaria Leve, em Osasco, São Paulo. Laci não compareceu ao novo posto. Segundo o comando, não apresentou novos atestados. A postura do sargento foi considerada “inadequada, incoerente, indisciplinada e duvidosa”, segundo nota enviada a ÉPOCA pelo Exército. No dia 21 de maio, a Justiça Militar mandou prendê-lo. Hoje, ele é considerado desertor e, ao final do processo, poderá ser expulso do Exército.
Os dois dizem estar na mira do comando por terem feito uma denúncia que aponta indícios de corrupção no hospital militar. Fernando chegou a formalizar a denúncia, citando supostas irregularidades em contratos no hospital. Na guerra com o comando, Laci e Fernando gravaram um general que os chefiava. O casal levou a gravação ao Ministério Público, que abriu processo para apurar a denúncia. A conversa gravada passou a ser parte do processo. Num dos despachos, o procurador do MP diz que o general, Adhemar da Costa Machado Filho, se refere a um dos sargentos como “marido” do outro.
[Clique para ler o texto Eles não são ingênuos,
publicado na segunda-feira em Já nas Bancas]
Para quem interessar: http://www.vanityfair.com/culture/features/2008/07/internet200807
Esse sim… para quem interessar http://www.estadao.com.br/geral/not_ger185044,0.htm
O outro é só o link da matéria da Vanity Fair…sorry…