Rolling Stone #20: Sexo, drogas e… a vida depois dos 60
15/05/2008 de Luiz Felipe Fustaino
Ney Matogrosso e Fernando Gabeira têm em comum a maneira com que cobrem suas partes íntimas. Dentre as muitas trangressões de Ney Matogrosso nos palcos, uma delas foi aparecer escondendo-as com um mero tapa-sexo; Gabeira é sempre lembrado por usar uma tanga rosa nas praias do Rio de Janeiro. Ambos estão nas páginas da edição de maio da Rolling Stone – aliás, a entrevista com Ney e o perfil de Gabeira estão em seqüência e são o que há de melhor nessa edição da revista.
Rolling Stone preferiu colocar Gabeira na capa. Mas não foi a toa que a entrevista com Ney Matogrosso é que obteve maior repercussão. Uma frase do jornalista Márvio dos Anjos na apresentação de sua entrevista com Ney sintetiza o que vem pela frente:
[Ney] Passa pelos assuntos mais espinhosos, com seus excessos com sexo e drogas, com tanta naturalidade que chega até a estranhar que haja tanta curiosidade sobre esses temas.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista de Ney Matogrosso na edição de maio da Rolling Stones:
Sobre a primeira vez que usou maconha
RS - Na Aeronáutica você conheceu a maconha e viu a primeira cena de amor homossexual. Conte essa história.
A maconha era para dar larica, porque a comida era horrível. Todo mundo fumava para conseguir comer. Eu ia ao Ministério da Aeronáutica fazer a minha carteira de identidade e, antes de ir, me ofereceram. Menino, eu desembestei. As pessoas falavam, eu não entendia nada. Cheguei no Ministério e fiquei parado lá no balcão, achando que já tinha falado com a recepcionista. Até que um colega meu perguntou o que eu fazia ali, e eu respondi. “Mas com essa cara de louco?” Eu disse: “Tô, fumei maconha”. Ele me apressou: “Sai daqui, rapaz, senão você vai ser preso, você está dando bandeira aqui, com essa cara de maluco”. Mas eu achava que estava normal.RS - E a homossexualidade?
Foi quando vi dois homens másculos se beijando e vi que aquilo podia ser uma coisa bonita, sem caricatura.
Sobre as drogas
A desgraça do RPM foi a cocaína. Mas eu nunca tinha cheirado. Não me destruiu, mas entendi que aquilo era uma mentira, uma farsa. Você fica cheio de si, mas quando a onde passa você não é mais criativo nem talentoso como achou que era. Não gosto dessas drogas; prefiro as que me deixam reflexivo, hipersensível de verdade.RS - Por exemplo?
Maconha.RS - Ainda deixa você hipersensível?
Porque não uso sempre, não sou maconheiro. Uso quando me interessa, para me esclarecer. Sempre usei drogas para me abrir a percepção. Quando tenho uma questão, uma dúvida, uso maconha como uma terapia, em cima da problemática. E aí aflora, porque a resposta está dentro de mim. Vira um facilitador dessa aproximação. Mas é muito eventual.(…) Eu me excedi muito, mas não me excedi por me exceder. O que me conduziu sempre foi a possibilidade de entendimento. Mesmo as loucuras desatinadas sempre tinham uma resposta, até para saber o que era e o que não era bom. Se não fosse positivo - e essa é a palavra - eu largava, porque eu nunca dependi. Para mim, foi experiência.
Sobre transgressões
Eu tinha 17 anos, nós morávamos numa vila militar recém-construída, a água era de poço e tinha uma bomba manual pesada. E quem mexia nessa bomba era eu. Acho até que meus ombros largos vieram dessas bombadas que eu dava lá. Um dia eu estava lavando o rosto com a pia aberta, e meu irmão gritou: “Fecha essa pia que você está gastando muita água!”. Eu respondi que se quisesse gastar a água toda, eu poderia, porque quem trazia era eu. Aí meu pai gritou: “Fecha essa pia agora!”. Respondi: “Você não pode falar nada, porque até para lavar os pés quem tem que pegar água para você sou eu”.(…) Me convença a fazer alguma coisa, que eu faço, mas me submeter, jamais. Aí ele me deu uma porrada na cara que me jogou dentro da banheira. Depois veio para cima de mim, e eu lhe dei um chute no saco tão forte que ele foi parar na porta. Foi quando ele me expulsou.
Sobre Caetano Veloso
Eu o achava extremamente instigante, sabe? Queria atingir as pessoas da maneira que ele me atingiu, num nível que era excitante para mim. Ele me deixou todo aceso. (…) Ele foi fazer um show com o Gilberto Gil, e eu fui tomar sorvete na única sorveteria que havia na cidade, em frente ao Hotel Nacional. Quando entrei, ele estava saíndo, todo vestido de rosa. Quando o vi daquele jeito, fiquei tão chocado com aquela imagem, aqueles cabelos enormes, cacheados… Foi a única vez que vi Caetano como fã. Eu comprava os discos dele, mas não tive coragem de me aproximar. Achei lindo, corajoso, revolucionário. Uma roupa cor-de-rosa?! Era impensável.
[...] de Luiz Felipe Fustaino Ontem, ao comentar a brilhante entrevista de Ney Matogrosso à Rolling Stone, critiquei a opção da revista pelo personagem da capa. Rolling Stone pôs Gabeira; eu colocaria [...]